Clássicos e correntes: do determinismo à geografia crítica
Uma linha do tempo do pensamento geográfico
A Geografia mudou de perguntas várias vezes em pouco mais de um século. Estudar as correntes na ordem em que apareceram ajuda a entender por que cada autor diz o que diz.
Fim do século XIX: a fundação alemã e francesa
Friedrich Ratzel é o nome ligado ao determinismo geográfico e à Antropogeografia. Para ele, o meio condiciona fortemente o desenvolvimento das sociedades. Formulou o conceito de espaço vital, a área necessária à sobrevivência e à expansão de um povo, e pensou o Estado como um organismo que cresce. Essas ideias foram depois apropriadas politicamente, o que reforça a importância de tratá-las com espírito crítico.
Paul Vidal de La Blache representa a resposta francesa, o possibilismo. O meio oferece possibilidades, e o grupo humano escolhe entre elas segundo sua cultura e sua história. Daí vêm os conceitos de gênero de vida e de região.
Élisée Reclus e Piotr Kropotkin formam a vertente libertária, muito antes da geografia crítica se organizar. Reclus escreveu uma geografia atenta à desigualdade social e à relação entre humanidade e natureza. Kropotkin defendeu o apoio mútuo como fator de evolução e discutiu o papel do ensino de Geografia na formação de pessoas solidárias.
Primeira metade do século XX
Richard Hartshorne defendeu a Geografia como estudo da diferenciação de áreas, ou seja, a ciência que explica por que um lugar é diferente de outro.
Carl Sauer, nos Estados Unidos, formulou a paisagem cultural: a cultura age sobre a paisagem natural e produz uma nova paisagem, com marcas do grupo que a ocupou.
Anos 1950 e 1960: a virada teorética
A chamada nova geografia, ou geografia quantitativa, buscou aproximar a disciplina das ciências exatas, com modelos, estatística e leis gerais de localização. Os modelos de lugar central e de uso do solo agrícola vêm desse ambiente. O ganho foi o rigor metodológico. A crítica foi a de que o método deixava de fora a desigualdade e o conflito.
Anos 1970 em diante: a geografia crítica
É a corrente que sustenta a maior parte das questões de concurso, porque é a que domina a produção acadêmica brasileira.
Milton Santos ocupa o centro, com a teoria do espaço já estudada na aula anterior. Ruy Moreira trabalha o pensamento geográfico brasileiro, a formação espacial e a discussão sobre o que é a Geografia. David Harvey analisa a produção capitalista do espaço, a compressão do tempo e do espaço e a acumulação por espoliação. Neil Smith formulou o desenvolvimento geográfico desigual e discutiu a gentrificação. Carlos Walter Porto-Gonçalves dedica-se à geografia ambiental, aos conflitos por território e ao pensamento latino-americano.
Geografia humanista e cultural
Nasce quase ao mesmo tempo que a crítica, mas com outra pergunta: como as pessoas experimentam o espaço.
Yi-Fu Tuan é o nome maior, com topofilia, a ligação afetiva com o lugar, e topofobia, seu oposto. Ana Fani Alessandri Carlos discute o lugar e a produção do espaço urbano com base na vida cotidiana. Doreen Massey propõe o sentido global de lugar e critica a ideia de lugar fechado. Edward Soja trabalha a espacialidade, a virada espacial nas ciências sociais e o terceiro espaço. Rogério Haesbaert desenvolve território, multiterritorialidade e desterritorialização, dialogando com as duas vertentes.
Como a banca cobra
O formato mais comum é a associação entre autor e conceito, em coluna dupla ou em alternativas. As trocas prediletas são Ratzel com La Blache, determinismo com possibilismo, e Sauer com Hartshorne. Outra pegadinha frequente é atribuir a geografia quantitativa aos anos 1970 e a crítica aos anos 1950, invertendo a cronologia.
Uma estratégia prática: memorize um par de palavras por autor. Ratzel e espaço vital. La Blache e gênero de vida. Sauer e paisagem cultural. Hartshorne e diferenciação de áreas. Tuan e topofilia. Harvey e produção do espaço. Smith e desenvolvimento desigual. Haesbaert e multiterritorialidade. Massey e sentido global de lugar.
Resumo em 5 pontos
- 1Determinismo com Ratzel, possibilismo com La Blache.
- 2Reclus e Kropotkin trazem a crítica social ainda no século XIX.
- 3A geografia teorética dos anos 1950 e 1960 buscou modelos e rigor quantitativo.
- 4A geografia crítica, desde os anos 1970, lê o espaço como produção social desigual.
- 5A humanista e a cultural focam experiência, afeto e sentido do lugar.
A barrinha no topo mostra o quanto você já leu.
O que você vai aprender
- Situar cada corrente no tempo
- Associar autor, obra e conceito
- Reconhecer as marcas de cada corrente na prova