Milton Santos: técnica, espaço e globalização
O autor mais cobrado, e o motivo disso
Milton Santos é o geógrafo brasileiro de maior projeção internacional e o autor que mais aparece em provas de concurso no Brasil. Não é apenas prestígio: a obra dele oferece um vocabulário completo para descrever o país, o que a torna muito útil para bancas que querem avaliar raciocínio geográfico, e não memorização.
Vale conhecer minimamente a trajetória. Baiano, formado em Direito, professor, exilado durante a ditadura militar, lecionou em vários países e voltou ao Brasil para construir, na USP, uma leitura própria do espaço. Obras muito citadas: A Natureza do Espaço, Por uma outra globalização, O espaço dividido e A urbanização brasileira.
Espaço como sistema de objetos e sistema de ações
Essa é a definição central. O espaço é formado por objetos, que são as materialidades fixas, e por ações, que são os usos, as normas e as intenções que animam esses objetos. Uma rodovia sem tráfego e sem função econômica é apenas concreto. Ela vira espaço quando é usada.
Dessa definição decorre a ideia de que o espaço é uma instância social, e não um reflexo passivo da economia.
Meio técnico-científico-informacional
Milton Santos periodiza a história do espaço em três meios sucessivos. O meio natural, em que a técnica se ajusta aos ritmos da natureza. O meio técnico, marcado pelas máquinas e pela industrialização. E o meio técnico-científico-informacional, a fase atual, em que ciência, técnica e informação se fundem na própria produção do território.
No Brasil, esse meio não se distribui de maneira uniforme. Ele aparece concentrado em manchas: o interior paulista, os polos do agronegócio no Cerrado, os grandes centros urbanos. Fora dessas manchas, convivem temporalidades diferentes. Essa desigualdade interna é justamente o que a banca gosta de perguntar.
Verticalidades e horizontalidades
Verticalidades são os fluxos comandados de fora, que atravessam o lugar e o subordinam a lógicas distantes: a cotação internacional de uma commodity, a decisão de uma empresa transnacional, a norma de um organismo global.
Horizontalidades são as relações de contiguidade, a solidariedade construída no cotidiano de quem compartilha o mesmo pedaço de chão: o comércio de bairro, a feira, a vizinhança, a escola.
Uma cidade do Centro-Oeste ligada à exportação de grãos é um bom exemplo dos dois movimentos operando ao mesmo tempo.
Território usado
Milton Santos insistia que a categoria de análise não deve ser o território em si, mas o território usado. O que importa é o conjunto formado pelas coisas fixas e pelos fluxos, tal como as pessoas efetivamente vivem. Essa formulação é frequentemente cobrada em prova quase com essas palavras.
As três globalizações
Talvez seja o trecho mais citado da obra dele, e vem de Por uma outra globalização.
- 1Globalização como fábula. O discurso oficial: aldeia global, mundo sem fronteiras, informação para todos, encolhimento das distâncias.
- 2Globalização como perversidade. O que se realiza de fato para a maioria: desemprego, precarização, aumento da pobreza, fome, doenças antes controladas, competitividade transformada em regra moral.
- 3Globalização como possibilidade. A aposta esperançosa: a mesma base técnica que sustenta a perversidade pode servir a outro projeto, mais solidário, se as bases materiais forem usadas com outra política. Ele fala de uma outra globalização, construída de baixo, com força na mistura de povos e culturas, algo que o Brasil tem em abundância.
Esse otimismo não é ingênuo, é um programa. Para quem vai dar aula na rede pública do Distrito Federal, é também um bom horizonte de trabalho.
Outros conceitos que caem
- Divisão territorial do trabalho: cada lugar recebe uma função dentro de um conjunto maior, e essa distribuição muda com o tempo.
- Psicoesfera e tecnosfera: a tecnosfera é o mundo dos objetos técnicos; a psicoesfera é o mundo das ideias, crenças e desejos que legitimam o uso desses objetos.
- Espaço banal: o espaço de todos, de todas as empresas, instituições e pessoas, em oposição ao espaço visto apenas pelo recorte econômico.
- Cidade e pobreza: em A urbanização brasileira e O espaço dividido, a análise dos dois circuitos da economia urbana, o superior e o inferior, que convivem nas cidades dos países pobres.
Como a banca cobra
Três armadilhas se repetem. Primeira: inverter verticalidades e horizontalidades. Segunda: apresentar o meio técnico-científico-informacional como se fosse homogêneo em todo o território nacional. Terceira: descrever a globalização como fábula e atribuir essa visão ao próprio Milton Santos, quando ele a usa para criticá-la.
Resumo em 5 pontos
- 1Espaço é sistema de objetos mais sistema de ações.
- 2O meio técnico-científico-informacional é a fase atual e é desigual no território brasileiro.
- 3Verticalidades vêm de fora, horizontalidades nascem da vida próxima.
- 4A categoria de análise é o território usado.
- 5A globalização tem três leituras: fábula, perversidade e possibilidade.
A barrinha no topo mostra o quanto você já leu.
O que você vai aprender
- Dominar os conceitos de Milton Santos
- Diferenciar verticalidades e horizontalidades
- Explicar as três leituras da globalização